( Excerto retirado de um satsgang do mestre Adyashanti)
"Quando
você disseca a espiritualidade aos seus princípios básicos, em termos de
despertar para a realidade, é simplesmente uma questão de onde você referencia
seu senso de identidade, e onde você referencia o que é real. Eu acho que a
maioria de nós, pelo menos por uma boa parte de nossas vidas, estabeleceu a
mente como ponto de referência da nossa verdadeira identidade e, do que é
verdadeiro e falso.
Então nossa identidade veio à nossa mente. Mas não apenas a identidade de quem nós somos veio a nossa mente através de uma imagem própria. Mas também nossa referência do que é verdadeiro e falso veio as nossas mentes, através do certo e errado, bom e mau, na forma de nossas estruturas de crenças, ideologia, e todo o resto. É claro que é muito fácil escutar a palavra “mente”, até porque ela é muito discutida em vários lugares o tempo todo. Assim, só a palavra “mente” pode passar e ser escutada sem ter um impacto, já que é uma palavra tão comum. Mas quando a gente olha realmente para o que é mente, para nós, para mim, para você, você percebe que é essa coisa imensa. É uma imensidão de pensamento. Isso é o que realmente é “mente”, é o ato de pensar, é pensamento. Então todos os pensamentos que você teve na sua cabeça por toda a sua vida, isso é mente. E o impacto da mente nos seres humanos é imenso. Só pense no impacto que sua mente teve sobre você desde que você nasceu. Pare pra pensar em todas as brigas e discussões que sua mente teve com ela mesma desde que você nasceu. Pense em todas as formas que sua mente achou que você estava errado desde que você nasceu, e justificou sua integridade. Só pare pra pensar na esmagadora quantidade de idéias que sua mente tem a respeito do mundo, dos outros, da espiritualidade e de tudo que você possa pensar. Sua mente é na verdade essa coisa imensa, muito muito poderosa.
E é nessa estrutura da mente, de pensamentos, que a enorme maioria 99,99% de seres humanos encontram sua noção de eu. A mente vai dizer a eles o que é real. Afinal, onde você vai buscar o que é real, se você não for pra sua mente? Sua mente não sabe para onde ir, não é mesmo? “Onde é que eu vou, se eu não for à minha mente, pra me dizer o que é real?” Então quando você realmente olha para o poder da mente, é algo imenso. E o simples fato que em nosso estado espiritualmente adormecido estamos usando como referência de nós mesmos, a mente e, toda a nossa verdade está vindo de nossa mente. Isso é algo enorme! A grande maioria da vida das pessoas não é nada além de suas próprias mentes.
Uma vez que você vai além da mente, você pode ver que também referenciamos a verdade através das nossas percepções, das nossas experiências, das nossas emoções. “A verdade é o que eu sinto, o que minhas emoções dizem”. Então, essa é outra área. Nós referenciamos a realidade na nossa mente e nas nossas emoções. E isso vai guiar nossa existência inteira, do nascimento ao túmulo. E infelizmente, é o que vai guiar a grande maioria de seres humanos. Isso é tudo o que eles conhecerão. Da hora que eles aprendem a língua até o momento de fechar seu caixão, esse é o seu mundo inteiro. A grande totalidade de suas vidas é a mente. Um eu virtual vivendo uma vida virtual tendo certezas virtuais e então experienciando uma morte virtual.
Mas mente, pensamentos, emoções e todas as percepções sensoriais estão todos acontecendo a algo.
A mente está acontecendo ao quê?
O que é que testemunha a mente?
O que é que sente um sentimento ?
O que é que testemunha a emoção?
O que é isso?
Agora, eu não faço essa pergunta para que a mente responda. Na verdade, eu faço essas perguntas para que ela silencie, porque a mente não tem nenhuma resposta para essas perguntas.
Mas existe
algo que registra todo pensamento que acontece. Algo registra toda emoção que
acontece. Algo registra todo som, todo cheiro, todo sabor, todo toque, toda
experiência que eu e você teremos em toda nossa vida. Algo registra todas
aquelas experiências. Todas elas ocorrem à verdade de nosso ser.
Já que o pensamento ocorre a alguma coisa, então a verdade não é o pensamento. Se a emoção acontece a algo, então a verdade não é simplesmente uma emoção. E o mesmo vale para visão, som, sentimento, sabor, toque, eles acontecem a algo. Todos eles acontecem a algo. E em nosso linguajar como seres humanos, nós dizemos: “Tudo isso acontece a.... mim.” É isso o que dizemos: “meus pensamentos acontecem a mim, meus sentimentos acontecem a mim, minhas percepções acontecem a mim, paladar, tato, olfato, tudo isso acontece a mim!” E evidentemente que, espiritualmente falando, o mais interessante e significante é o que é esse “eu” a que tudo isso está acontecendo? A maioria das pessoas só respondem essa pergunta com outro pensamento. Se você for aos livros de filosofia, você encontrará pensamento respondendo pensamento. Mas não existe resposta. Porque isso não te fala a quem os pensamentos estão acontecendo, a quem os sentimentos estão acontecendo, a quem toda essa vida de experiência está acontecendo.
É assombroso
que passamos a nossa vida inteira sem nunca nos ocorrer o que é esse eu a que
tudo acontece. Todo pensamento, todo sentimento, toda experiência, tudo que
acontecer em toda a minha, o que é esse eu a que tudo isso acontecerá? Quem é o
recipiente disso tudo? E é claro que não podemos obter uma resposta em
pensamento, sentimento, ou qualquer percepção sensorial, porque nenhum desses
nos dirá a quem essas coisas está acontecendo. Ou a o quê essas coisas estão
acontecendo.
É apenas
quando a pergunta é silenciada,quando o pensamento e a busca silenciam, só
então se pode sentir. Não é apenas intuído, é mais que isso, é percebido. Tudo
que é experienciado, todo pensamento que acontece em sua cabeça, todo
sentimento que você experiencia, tudo acontece a (silêncio), está vendo que a
sua mente não consegue responder isso? Sua mente não adoraria que eu soltasse uma
resposta? Para que vc pudesse anotar, e lembrar “ah é, tudo acontece a...” e o
pensamento iria “Ah, agora eu entendi tudo”. Mas isso não é a verdade, né?
Quando você,
na realidade, percebe diretamente aquilo a que todo pensamento, sentimento e
experiência acontece, há apenas um vasto silêncio. Não existe alguma coisa lá.
É apenas um enorme espaço desperto, no interior do qual todo pensamento
acontece. Todo sentimento é sentido por esse enorme espaço desperto. Chame do
que você quiser, não importa do que você chamar, é a experiência direta que
importa.
A coisa mais
real dentro de nós, é a mais quieta. É exatamente por isso que é fácil de não notar.
A realidade definitiva que nós somos é a coisa mais silenciosa que ocorre. É a
quietude na qual todo o resto está ocorrendo. Logo, é extraordinariamente fácil
de não notar porque nós estamos sendo sempre treinados a olhar para algo
ruidoso, chamativo, grande. Mas essa consciência, não é ruidosa, não é
chamativa – (silêncio) – é o espaço no qual tudo isso ocorre.
De um modo
bem simples, quando nós realmente despertamos, nosso senso de identidade, se é
que pode-se dizer que existe algum senso de identidade, mas certamente nosso
ponto de referência do que é real vive em... bem, o vazio vira nossa realidade.
Não o pensamento, não o sentimento, não as percepções, todos esses acontecem à
consciência, ou vazio. Isso se torna a realidade. O resto é só pensamento, só
sentimento, não é a realidade definitiva. Assim que isso é experienciado, como
eu costumo dizer, é auto-autenticante.
Quando a pessoa pergunta “Como eu vou saber quando eu despertar?”, se você tem
a pergunta é porque ainda não aconteceu. Assim que o vazio percebe a si mesmo,
é auto-autenticante, isto é, ele sabe. Ele simplesmente sabe. Você simplesmente
acorda um dia, ou você bate seu dedão numa quina, ou você sai da banheira, e
você percebe : “Ahá! É isso que eu sou. Isso que significa vazio, consciência.
Isso que é espírito! Ah que simples! Como eu não percebi isso antes?!”
Quando
percebemos o imenso mundo de pensamento, as realidades que estão contidas em
pensamento vêm ao chão, todas as realidades contidas em pensamento colapsam.
Para algumas pessoas isso é maravilhoso. É incrível ver tudo aquilo que você
pensava ser realidade vir ao chão. Não porque você está provocando o colapso,
está mais para quando alguém puxa o tapete debaixo do seu pé e você
naturalmente cai. Desse modo, a realidade desaparece do pensamento.
Não que o
pensamento não seja útil. Eu gosto dos pensamentos assim como qualquer um. Eles
são especialmente divertidos quando você não está mais buscando verdade neles. Note
que os seres despertos usam muito mais o silêncio como ponto de referência da
verdade do que o barulho.
O importante
não é necessariamente experienciar o silêncio, mas é onde estamos referenciando
a realidade, a verdade. Onde estamos indo para nos dizer o que é verdadeiro,
real e autêntico. Onde estamos indo? Porque eu conheço pessoas o tempo todo que
conseguem meditar lindamente, conseguem sentar em silêncio, experienciar o
silêncio, entrar em estados profundos. Mas quando elas não estão meditando,
elas ainda estão usando seus padrões de sentimento e pensamento como referência
do que é real e verdadeiro. Essa é a diferença entre um ser desperto e um ser
que não despertou. O que não despertou ainda está usando seus pensamentos e
sentimentos como referência do que é verdadeiro. O ser desperto não mais usa os
pensamentos e sentimentos como referência do que é a verdadeiro.
Quando isso
acontecer com você de primeira, vai ser algo entre um pouco estranho e muito
aterrorizante. É experienciado em algum nível desse espectro. Pode ser desde “Isso
é um pouco estranho” a “Isso é terrível, eu vou morrer!”. Mas você pega o jeito
depois de um tempo. Você perceberá que existe uma inteligência imensa no
silêncio. E uma imensa capacidade para o amor, compaixão e carinho.
Então esse
vazio que está acordado, esse silêncio que está desperto, está disponível e
presente para qualquer pessoa a qualquer momento. Tudo que você tem que fazer é
parar de pensar nisso. É tudo que você tem que fazer, parar de pensar nisso.
Pare de procurar verdade nessa cabecinha aí em cima. Saiba que buscar a verdade
na sua mente, é a mesma coisa que buscar a verdade no seu computador. O que
aconteceria se você fosse para casa e perguntasse a seu computador “Qual é a
natureza última da realidade?” e apertasse ENTER. O que eu quero dizer é que o
computador é uma ferramenta incrível, ele se torna mais incrível a cada dia.
Por ser tão incrível eu não consigo acompanhá-lo, ele é cinco vezes mais
esperto que eu. Porém ainda que ele seja cinco ou cem vezes mais inteligente, mais
rápido, mais brilhante que eu, ele não sabe a primeira coisa sobre a verdade. “O
que é a realidade?” ENTER. E... Nada. Tá vendo? Porque tudo a que ele tem
acesso é basicamente pensamento na forma de números e algoritmos. Mas
basicamente é pensamento. Para produzir coisas, e fazer coisas acontecerem. Do
mesmo modo que nosso cérebro pode produzir coisas e fazer coisas acontecerem. O
seu cérebro pode fazer todo tipo de experiências acontecerem. Mas nada disso te
fala a quem essas experiências está acontecendo, o que você é. E nesse lugar, a
mente fica quieta. Tem algo latente nos seres humanos, que só se ativa e toma
vida quando a mente fica quieta. Eu não digo necessariamente que a sua mente
pare, eu digo quando você não está mais buscando por seu eu ou verdade na sua
mente. Se você sentir internamente, a quietude já está presente. Só de eu mencionar
isso, assim que você reconhecer, você não encontrará a realidade última ou a
sua natureza verdadeira na sua mente. A sua mente não saberá onde procurar, e
haverá um silêncio. Um imenso silêncio. E isso não é o silêncio da disciplina.
Não está forçando a sua mente a estar em silêncio. É a sua mente se ficando em
silêncio através da inteligência, porque ela vê sua limitação. A mente
espontaneamente começa a silenciar assim que percebe sua limitação. A sua mente
não consegue te dizer a quem o pensamento ocorre. Ao perceber que não tem a
resposta para isso, naturalmente a busca incessante da mente pára.
Então essa
presença consciente silenciosa se torna sua realidade. É por isso que digo que
a realidade última é uma ladra, porque o que é que existe para se agarrar na
presença consciente silenciosa? Ela rouba suas identidades criadas pelo
pensamento, seu mundo criado pelo pensamento, toda a sua estrutura de crenças.
Semana
passada alguém veio e me perguntou: “Adya, no que você acredita?” , e eu
respondi “Eu não acredito.” A crença é um substituto. Quando você não sabe o
que é verdade, você acredita. Quando você sabe o que é verdade, você não precisa
acreditar. A crença não é necessária. E se você acordasse amanha de manhã e não
acreditasse mais em nada que você acredita. Pare para pense em quanta coisa você
acredita. Mesmo escutando uma palestra como essa, em que alguns de vocês estão
mais ou menos convencidos, o que realmente não tem importância, alguns de vocês
podem nem estar, ainda assim; Vamos supor que você acordasse amanhã de manhã,
tipo num episódio de Além da Imaginação,
e você não conseguisse acreditar em nada que você acredita. Você veria as
crenças flutuando em sua mente, mas elas não colariam como um velcro em você.
Num dia comum, já percebeu que assim que você acorda, esse velcro acontece com
todas as crenças que passam pela sua cabeça? “Eu preciso ir, eu tenho que fazer
isso, ele gosta de mim, ela gosta de mim, ela não gosta eu sei, não quero falar
sobre isso. Eu tenho que tomar uma decisão. O que eu faço? Para onde eu vou? Como
eu sei que estou certo? Como eu sei que estou errado? Será que eu disse a coisa
certa? Eu não disse a coisa certa?”. Agora imagine se não tivesse esse velcro,
imagine um ‘pensamento teflon’, que
não colasse em nada. Aí você estaria de mãos vazias. Vazio total. Silêncio
total. Você poderia até ter a realização “Ah então é isso! Isso é que é Espírito.
Isso que é o Divino. Isso que é o Vazio Radiante”. E depois “Ah então é isso?
Isso? Como é que eu nunca senti isso? Como eu não pude notar isso antes?”
Eu não estou
aqui para dizer a ninguém o que fazer ou deixar de fazer, ou como. Estou apenas
tentando provocar uma lembrança. Eu estou mais para um incendiário descendo a
rodovia riscando fósforos na grama para ver se provoca um fogo. Talvez acenda
algo, se estiver seco. Talvez acenda quando estiver pronto. Porque essa quietude,
essa presença consciente silenciosa não é algo que pertença a alguém. Buda,
Jesus, ninguém tem mais que você.
Quando você vir
o que está dentro de você, o que está vivendo você, o que você real e
verdadeiramente é, aquela vazio radiante. Quando você perceber que é isso que você
é, que é exatamente isso que é você e todos os seres. Que é isso que preenche cada
ser que já viveu, dos mais altos aos mais baixos.
Todos os
problemas pessoais, intra-pessoais, os maiores problemas da humanidade são
problemas da falta da experiência da verdade e uma tremenda absurda falta de
sensibilidade. Não a sensibilidade psicológica do tipo ‘eu sei o que você sente’,
essa é bonita também, nem essa a gente conquistou muito bem. Mas me refiro a
sensibilidade profunda do movimento de dentro do silêncio. Existe uma falta
desperadora da sensibilidade do espírito interno das coisas. 99% das nossas
questões vêm porque não temos sensibilidade da natureza interna das coisas.
Temos milhões de questões, e todas surgem de não sentir o que é natural. É só
isso que é a iluminação, é o estado natural. É o estado não contraído. É o
estado que a mente não está criando.
Você foi tão
convencido dessa pequenez, que esqueceu que o Universo existe dentro de você.
Tudo que existe, existe dentro disso que está desperto. (...) Tudo existe
dentro de você, você não existe dentro desse mundo.
Minha
sugestão é apenas relaxe. Ninguém deve buscar o que já é. Ninguém pode se
tornar o que já é. É impossível você se tornar a verdade que você já é. Só é
possível parar de se convencer dessa pequenez. Não tem como nos tornarmos o que
somos. Apenas podemos parar de nos convencer do que não somos. Apenas temos que
começar a ver, de uma vez por todas, que nossas limitações são coisas que
nossas mente nos fala e que acreditamos. E parece poderoso porque a maioria das
pessoas ao seu redor acredita nisso.
Temos que
estar meio malucos para procurar por nós mesmos. Parece meio maluquice procurar
por si mesmo, não? Procure por você mesmo, sozinho em todo o universo, não se
apoiando em ninguém, em nada que você aprendeu, em nada que disseram a você, em
nada que eu estou lhe dizendo, não se apoie em nada. Nada. Encontre aquele
lugar em você que é completamente não condicionado. Aquele lugar em que um
pensamento jamais alterou suas percepções, jamais tocou e conseguiu modificar o
modo como você olha pras coisas. Encontre esse lugar e procure por si mesmo.
Esse foi um dos maiores presentes do Buda: “Seja seu próprio archote.” Apenas
alguém que sabia o que estava no coração de todos os seres humanos pôde dizer
isso com tanta confiança. A maioria diz “Acredite em mim. Me siga”. Isso vem de
alguém que não tem confiança, não confia na natureza verdadeira dos outros
seres. Não conhece os outros seres. Qualquer um que diga “Acredite em mim/ Me
siga” Corra dele, o mais rápido que puder. Isso mostra que não tem confiança,
nem conhecimento da natureza verdadeira de todo ser.
Sinta em você
mesmo agora, o que está acordado? Você está acordado! Existe consciencia. O que
é que está acordado? Procure por si mesmo. Isso é o que você tem de mais
poderoso. O mero fato de que você está acordado agora, de que você pode
escutar, sentir, cheirar, ver. Essa consciência assimila tudo. Perceba o quão
quieta essa consciência é. Perceba o quão ela é livre do pensamento, mesmo que eles
estejam presentes. Sinta. Procure sentir mais do que pensar. O que pode parecer
muito pequeno e insignificante pode revelar sua imensidão. Esse silêncio é tão
fácil de dispensar, de tratá-lo como insignificante ao ponto de você nunca se
aproximar dele. Você nunca procura por si mesmo fora de um pensamento, e quando
você olha de perto tendo total intimidade, você de repente está olhando para a
eternidade, para algo sem nenhuma limitação. Mas você não pode deixar um
pensamento te distanciar."